FAMB11 — FII Edifício Almirante Barroso

(Monoativo Av. Rio Branco, 174 - Centro, Rio de Janeiro)

Recomendação: VENDA · Nota 1,8/10 · Cotação R$ 950,0 · P/VP 0,9577 · DY 12m 0,0%

Análise e recomendação

O FAMB11 é um dos casos mais dramáticos do universo de FIIs brasileiros. Trata-se de um fundo monoativo que detém 100% do Edifício Almirante Barroso, prédio corporativo histórico na Av. Rio Branco, 174 (Centro do Rio de Janeiro), com 54.144 m² de ABL. Entre 2003 e 2020, o fundo funcionou como renda estável locada integralmente à Caixa Econômica Federal (CEF). Em 2020 a CEF consignou as chaves em juízo e saiu, e o imóvel opera desde então com vacância entre 95% e 98%.

Em nov/2024 o fundo recebeu R$ 163 milhões de acordo judicial com a CEF, que viraram um rendimento extraordinário de R$ 1.001,60/cota em dez/2024 e uma amortização de R$ 200/cota em abril/2025. A partir de 2025 o ativo foi reavaliado pela Cushman & Wakefield de R$ 223 Mi para R$ 118,9 Mi (queda de 46% no ano), a administração passou do BTG Pactual para a Actual DTVM e a gestão virou a Áfira. Em ago/2025 foi protocolado projeto de conversão para uso misto (residencial + comercial) na Prefeitura do Rio — é esse o veredicto final da tese. Hoje o fundo não paga dividendos, a taxa de administração segue em R$ 35 mil/mês mesmo com receita mínima, e a cota negocia acima do VP. A tese é binária: ou a conversão é aprovada e destrava valor, ou o ativo continua sangrando caixa indefinidamente.

Tese de investimento

A tese do FAMB11 hoje é binária e altamente especulativa. Não há mais tese de renda: o fundo não paga dividendos, tem 95% de vacância e o aluguel captado mal cobre as despesas fixas do edifício. A única narrativa que justifica posição é a de destravamento de valor via conversão para uso misto (residencial + comercial), protocolada na Prefeitura do Rio em ago/2025.

Os cotistas que aceitam essa tese precisam acreditar que: (i) a Prefeitura do Rio aprovará a mudança de zoneamento; (ii) haverá CAPEX disponível/emissão nova para financiar a reforma completa; (iii) a demanda por unidades residenciais no Centro do Rio é real; e (iv) a Áfira/Actual têm capacidade técnica para entregar a reconversão. A contrapartida é o risco de que nenhuma dessas premissas se confirme, cenário em que o imóvel será provavelmente alienado com novo desconto sobre o VP atual.

Para quem é

  • Investidores de turnaround / special situations dispostos a apostar na reconversão para uso misto residencial do prédio (tese binária)
  • Perfis que aceitam zero distribuição de dividendos por anos em troca de potencial ganho de capital no valor da cota
  • Investidores com tolerância a altíssima volatilidade (cota oscilou entre R$ 741 e R$ 1.119 em 6 meses de 2025)
  • Pequenas posições táticas sem relevância no portfólio total

Para quem não é

  • Investidores de renda que buscam distribuição mensal previsível — o fundo não paga há 1 ano
  • Perfis conservadores ou que priorizam preservação de capital
  • Quem monta posição de longo prazo em FIIs com base em DY e P/VP — ambos os indicadores estão poluídos aqui
  • Investidores que não aceitam risco de execução imobiliária (obras, licenças, demanda residencial no Centro/RJ)
  • Iniciantes no mercado de FIIs — é um caso de escola de armadilha de valor

Pontos de atenção e riscos

Vacância de 95% com ênfase do auditor

O relatório da BGM Auditores em 31/12/2025 traz parágrafo de ênfase sobre a vacância de 95%. Em 2024 a vacância era de 98,01% (praticamente integral). Com apenas 5% do imóvel alugado, a receita de aluguel mal cobre as despesas fixas (IPTU, manutenção, condomínio, seguros).

Sem distribuição de dividendos

Desde a amortização de R$ 200/cota em abr/2025, o fundo não declarou rendimentos. O resultado financeiro é negativo e o prejuízo caixa acumulado de jan/2021 a out/2024 já foi compensado via amortização. DY 0% em 2026 até aqui.

Monoativo e monoinquilino em crise

O Ed. Almirante Barroso é o único ativo. Após a saída da CEF em 2020 (consignação de chaves em juízo), não há locatário âncora. Os contratos atuais somam apenas 10,58% da receita potencial e todos vencem em até 3 meses — praticamente locação de curto prazo/balcão.

Desvalorização de 46% do imóvel em 2025

A Cushman & Wakefield reavaliou o imóvel em jan/2026 para R$ 118,9 mi, queda de R$ 104,05 mi frente aos R$ 223 mi de 2024 (-46%). Premissas: taxa de desconto 11,5% a.a., cap rate 10% a.a., período de análise 11 anos. Em 2016 o mesmo imóvel valia R$ 573,9 mi.

Dependência do projeto de conversão para uso misto

Em 28/08/2025 foi protocolado na Prefeitura do Rio um projeto para converter o imóvel em uso misto (residencial + comercial). A classificação do fundo já mudou para 'Tijolo Híbrido Residencial'. A aprovação depende de consulta formal aos cotistas, licença municipal, CAPEX de reforma e demanda residencial na região central do Rio (historicamente fraca). Tese binária.

P/VP maior que 1,0 sobre VP deteriorado

A cota fechou dez/2025 a R$ 1.068,94 enquanto o VP caiu para R$ 991,92 — P/VP de 1,08. Pagar prêmio sobre patrimônio já reavaliado para baixo assume implicitamente que o projeto de conversão destravará valor adicional. Se não destravar, existe nova rodada de desvalorização.

Inadimplência de 11,82% sobre receita

Do pouco que é locado, quase 12% está em atraso superior a 90 dias (informe trimestral 4T25). Base de locatários atual é frágil e pulverizada, sem garantias robustas.

Concentração extrema da base de cotistas

20 cotistas detêm 69,64% do total de cotas (informe anual 2025). Apenas 15,38% estão pulverizados até 5%. Base altamente concentrada amplifica oscilações de preço e reduz liquidez efetiva.

Troca múltipla de prestadores de serviço

Em 2025 houve substituição do administrador (BTG Pactual → Actual DTVM em 20/06/2025), do gestor (passou a Áfira Gestão), do auditor (Ernst & Young → BGM Auditores), do custodiante (BTG Pactual → Banco Daycoval). Descontinuidade institucional em momento de crise operacional.

Taxa de administração pesa muito sobre receita mínima

Mínimo de R$ 35 mil/mês da Actual + R$ 7 mil/mês da Áfira. Com receita bruta trimestral de ~R$ 2,35 mi (4T25), as taxas consomem fatia relevante. Em 2024 a taxa de administração foi de R$ 4,81 mi (1,90% do PL), absurdamente alta para um FII em crise.

Risco jurídico histórico e residual

Histórico extenso de litígios (ação revisional de 2010, ação de consignação de chaves 2020, execução de aluguel de dez/2020, etc.). O acordo com a CEF fechou grande parte em out/2024 (R$ 163 mi), mas ações trabalhistas e indenizatórias menores seguem ativas.

Sobre a gestora

A Áfira Gestão de Recursos (CNPJ 21.143.1.8/5500-00, Rua Visconde de Pirajá, 414, Ipanema) assumiu a gestão do FAMB11 em 2025, junto com a mudança do administrador para a Actual DTVM (Belo Horizonte/MG). É uma gestora pequena sem histórico significativo de FIIs listados, o que é um fator de incerteza em um momento em que o fundo precisa executar um projeto complexo de reconversão imobiliária.

A administração do BTG Pactual durou 22 anos (desde 2003) até ser destituída em assembleia de fev/2025. A saída do BTG ocorreu em meio à crise de vacância e frustração dos cotistas com o desempenho pós-CEF. A Actual DTVM é autorizada pela CVM desde dez/2023 (ato declaratório 21.509), também é uma administradora nova, sem larga escala em FIIs de tijolo.

Conclusão

O FAMB11 é um dos casos mais instrutivos do mercado brasileiro de FIIs sobre o que acontece quando um fundo monoativo perde seu locatário âncora. Durante 17 anos (2003-2020), foi uma das teses de renda corporativa mais previsíveis da bolsa, com a CEF pagando aluguel ajustado pelo IGP-M em um prédio icônico do Centro do Rio. Entre 2016 e 2025, porém, o imóvel perdeu ~79% de valor de mercado (R$ 573,9 mi → R$ 118,9 mi) e a ocupação desabou de 100% para 5%. O acordo judicial de R$ 163 mi com a CEF em nov/2024 foi uma tábua de salvação pontual, mas não estrutural: o caixa recebido foi quase integralmente distribuído aos cotistas via rendimento extraordinário (R$ 1.001,61 em dez/2024) e amortização (R$ 200 em abr/2025).

O diagnóstico atual é severo: imóvel com 95% de vacância (enfatizado no relatório do auditor BGM), contratos remanescentes todos com vencimento em até 3 meses, inadimplência de 11,82%, receita mensal insuficiente para cobrir IPTU+condomínio+manutenção+seguros, taxa de administração de R$ 35 mil/mês que pesa fortemente sobre a receita, e zero distribuição de dividendos em 2026. A reavaliação da Cushman & Wakefield em jan/2026 usou premissas agressivas (taxa de desconto 11,5%, cap rate 10%, 11 anos de fluxo), o que já incorpora expectativa realista do avaliador de longo período até o imóvel retomar geração de caixa.

A única tese que justifica posição hoje é a aposta binária na conversão para uso misto (residencial + comercial) protocolada na Prefeitura do Rio em 26/08/2025. Essa conversão exigiria: (i) aprovação regulatória; (ii) CAPEX elevado de reforma (provavelmente nova emissão); (iii) demanda por unidades residenciais no Centro do Rio, historicamente fraca; e (iv) execução técnica por gestora pequena sem histórico. Como a cota negocia a P/VP 1,08 sobre VP já deteriorado, o mercado está precificando sucesso moderado dessa reconversão — cenários adversos implicariam nova rodada de perdas. Para investidores de renda, o FAMB11 saiu do radar há anos. Para investidores de special situations, é uma opção de alto risco com upside assimétrico se o projeto de conversão vingar, mas com probabilidade razoável de armadilha de valor adicional.